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Carreira & Gestão

Mudanças na lei

Escala 5x2 ganha força no Piauí com testes em empresas e debate sobre produtividade

Mudança na jornada divide setor produtivo, mas empresários e economistas apontam ganhos de eficiência e qualidade de vida

Dulce Luz 04/05/2026 às 16h12 (últ. atualiz.: 07/05/2026 às 09h10) 12 min de leitura 187 visitas
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A rede Carvalho Super foi uma das primeiras empresas do Piauí a iniciar a nova jornada

A rede Carvalho Super foi uma das primeiras empresas do Piauí a iniciar a nova jornada

A discussão sobre a escala 5x2, modelo em que o trabalhador atua cinco dias e descansa dois, ganha força no Brasil em meio a um problema histórico da economia: a baixa produtividade do trabalho. No Piauí, o debate já saiu do campo teórico e começou a ser testado na prática por empresas que buscam melhorar o desempenho das equipes sem ampliar a carga de trabalho. 

Entre as companhias que já iniciaram a jornada 5x2 no Piauí, todas são de ramos diferentes. O Grupo Vanguarda, que comanda a rede de supermercados Carvalho Super e Carvalho Mercadão; a rede Drogaria Globo e o  Al Capone pub.

Para o economista Cézar Fortes, o novo modelo pode trazer ganhos tanto para trabalhadores quanto para empresas. “Com dois dias consecutivos de folga, há uma recuperação física e mental maior. Isso tem tudo para ser bom para os trabalhadores, mas também bom para os próprios empresários, na medida em que isso deve significar uma melhor produtividade do trabalho”, afirmou.

Economista Cézar Fortes avalia que o novo modelo pode trazer ganhos para trabalhadores e empresas

 

Segundo ele, o país ainda apresenta desempenho fraco nesse indicador. “É uma tentativa, com grande chance de sucesso, de recuperar esse item importante, que é a produtividade da nossa mão de obra.”

Dados de organismos internacionais reforçam esse diagnóstico. Levantamento da Organização Internacional do Trabalho indica que o Brasil ainda apresenta baixa produtividade quando comparado a economias desenvolvidas, mesmo com uma jornada média próxima de 40 horas semanais. Isso sugere que o desafio está menos no tempo trabalhado e mais na eficiência. Nesse cenário, mudanças na organização do trabalho, como a ampliação do tempo de descanso, passam a ser vistas como alternativa para melhorar o desempenho econômico.

O Grupo Vanguarda, responsável pela rede de supermercado Carvalho Super e Carvalho Mercadão, iniciou um projeto piloto em duas lojas em Teresina. A empresária Van Fernandes afirma que a mudança exigiu uma reorganização completa das escalas internas para garantir que o funcionamento das lojas não fosse afetado. “A gente fez uma engenharia para poder encontrar um ponto que melhorasse a eficiência operacional e, ao mesmo tempo, que a gente encontrasse um horário conveniente para cada colaborador. Eles passam a ter dois dias de folga e mais tempo com a família”, explicou.

Grupo Vanguarda implantou escala 5x2 em duas de suas lojas em Teresina como projeto piloto

 

Segundo ela, a principal preocupação foi manter a experiência do cliente. “O horário de funcionamento permanece normal, a mesma comodidade, o mesmo atendimento. A gente tentou não fazer nenhuma alteração em relação ao horário de abertura nem ao horário de fechamento”, disse. Para isso, a empresa ajustou horários de entrada, saída e intervalos dos funcionários. “A gente apenas fez um ajuste para que pudesse dar esse benefício sem prejudicar a operação”, afirmou.

 

A expectativa da empresária é que o impacto seja positivo para a empresa e para os funcionários. “Acreditamos que eles vão estar mais motivados, mais receptivos e vão atender melhor os nossos clientes”, disse. Segundo Van Fernandes, o modelo ainda está em fase de validação e pode ser expandido para outras unidades do grupo e para a área administrativa.

A rede Drogaria Globo também já adotou  nova escala de trabalho em algumas lojas. Trata-se da quinta maior distribuidora de medicamentos do País. Atualmente a rede piauiense possui unidades nos estados do Piauí, Maranhão, Rio Grande do Norte, Pará e Bahia.

Drogaria Globo está implantando escala 5x2 gradativamente em suas lojas

 

Outra empresa que iniciou a jornada 5x2 foi o Al Capone Pub, inclusive anunciando a mudança em suas redes sociais (veja abaixo).
 

 

Para Cézar Fortes, experiências como essa ajudam a trazer o debate para um campo mais concreto. Ele avalia que a resistência inicial de parte do setor produtivo é natural, mas pode ser superada com resultados práticos. “Já aconteceram várias mudanças no país desse tipo e sempre houve reação empresarial. Mas existem empresários mais sensíveis que consideram o efeito da produtividade do trabalho, que pode melhorar muito com empregados mais descansados”, disse.

O economista também questiona projeções mais pessimistas sobre impactos econômicos negativos. “Essas medições de impacto negativo, inclusive sobre o PIB, me parecem exageradas. Pode haver algum efeito, mas algo bem mais razoável. No conjunto, é uma medida que tende a ser positiva também do ponto de vista econômico”, afirmou. Para ele, o Brasil precisa buscar alternativas para melhorar a produtividade sem necessariamente aumentar a carga de trabalho.

A mudança tem impacto direto sobre setores intensivos em mão de obra, como comércio e serviços

 

PEC avança no Congresso

A proposta de mudança na jornada já avançou no Congresso Nacional. O texto foi aprovado na Câmara dos Deputados e segue agora para análise em uma comissão especial antes de ser levado ao plenário. Caso avance, ainda precisará passar pelo Senado. A discussão envolve mudanças estruturais nas relações de trabalho e tem impacto direto sobre setores intensivos em mão de obra, como comércio e serviços.

Entidades empresariais têm se posicionado de forma crítica à proposta. Em manifesto, a União Nacional das Entidades de Comércio e Serviços (UNECS)  alerta para riscos como aumento de custos operacionais, redução da contratação formal e possível avanço da informalidade.

Proposta está em discussão no Congresso Nacional (Foto: Antônio Cruz/Agência Brasil)

 

No Piauí, o presidente da Federação da Câmara dos Dirigentes Lojistas (FCDL), Sávio Normando, afirmou que segue a orientação nacional. Em manifesto, a União Nacional das Entidades de Comércio e Serviços (UNECS) afirma que a alteração da escala pode gerar impactos econômicos negativos, especialmente em setores intensivos em mão de obra. Segundo a entidade, a redução da jornada sem ajustes proporcionais na organização do trabalho pode elevar os custos operacionais, pressionar a contratação formal e incentivar a informalidade.

O documento também aponta questionamentos jurídicos, ao argumentar que mudanças estruturais na jornada exigiriam alteração constitucional, além de destacar riscos para micro e pequenas empresas, que operam com margens mais apertadas e dependem de funcionamento contínuo.

O gestor da área internacional e de mercado da Federação das Indústrias do Piauí, Islano Marques, disse que acompanha o posicionamento da Confederação Nacional da Indústria, que também demonstra cautela em relação à medida.

Entre ganhos de produtividade, custos operacionais e qualidade de vida, o modelo começa a ser avaliado na prática, com empresas e trabalhadores no centro de uma das principais transformações em discussão no mercado de trabalho brasileiro.

Islano Marques, gestor da área internacional e de mercado da Federação das Indústrias do Piauí (Foto: Arquivo pessoalI)

 

Para a federação, qualquer mudança na jornada precisa considerar as especificidades do comércio, que depende de horários estendidos e grande rotatividade de trabalhadores. A avaliação é que alterações sem a devida calibragem podem impactar preços, empregos e a competitividade das empresas, especialmente em um cenário econômico ainda sensível.

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