Escolha uma ferramenta. Ela será aberta em outra aba; você poderá usar sua própria conta.
Agricultores familiares da zona rural de José de Freitas, a 56 quilômetros de Teresina, multiplicaram em até seis vezes o lucro após acessar crédito rural para investir em irrigação, mecanização e infraestrutura. No Assentamento São Francisco, cerca de 50 famílias deixaram a agricultura de subsistência para produzir o ano inteiro, com mercado garantido e menor dependência das chuvas.
A agricultora Maria do Livramento da Cunha, de 49 anos, secretária de Finanças da Associação dos Agricultores do Assentamento São Francisco e vice-presidente do Sindicato dos Trabalhadores Rurais (STTR) de José de Freitas, explica que, graças ao acesso ao financiamento, a comunidade não depende apenas das chuvas, utilizando sistemas de irrigação que permitem produzir mesmo em períodos secos.
“Antes a gente plantava no toco, uma produção mais atrasada, e a partir do crédito deu uma alavancada porque a nossa área passou a ser mecanizada e irrigada. Isso é totalmente diferente. Principalmente com as chuvas irregulares. Esperar pelo inverno é uma esperança que o agricultor sempre tem, mas nem sempre vem”, destaca Maria, que vive há quase três décadas no assentamento.
Ela explica que o primeiro acesso ao crédito aconteceu por volta de 2001, por meio do Programa Nacional de Fortalecimento da Agricultura Familiar (Pronaf), um programa do Governo Federal que oferece crédito rural com menores taxas de juros para pequenos produtores. Posteriormente, os agricultores acessaram o Pronaf Grupo A/C, outra linha de crédito rural voltada para assentados da reforma agrária e beneficiários do crédito fundiário que já acessaram o Pronaf A.
Mais recentemente, os lavradores começaram a acessar o Agroamigo (especificamente o Agroamigo Crescer), uma linha de microcrédito rural do Banco do Nordeste voltada para agricultores familiares, que financia atividades agropecuárias e não agropecuárias no campo.
Os recursos foram utilizados para financiar tecnologia, infraestrutura e rebanho, resultando no aumento da produção em cerca de quatro vezes e permitindo até três safras por ano.
“Quando você entra em uma terra nua e crua e tem apenas uma casa coberta de lona, para o que temos hoje, a distância é muito grande”, diz o presidente da Associação dos Agricultores Familiares do Assentamento, Francisco das Chagas Ribeiro. Ele lembra que a partir do momento que começaram a entrar os primeiros créditos, já deu um salto enorme na qualidade de vida dos moradores.
“O campo não é só casa para morar. A gente veio para produzir. Essa terra que temos para plantio foi adquirida a partir desses créditos, perfuramos poços, colocamos sistemas de irrigação, saímos da roça de toco. Antes tínhamos uma safra por ano, agora temos três”, comemora Chagas Ribeiro.
Filhos estudam Biologia e Agronomia para melhorar produtividade
Outra agricultora que divide o campo no Assentamento São Francisco e foi contemplada com meio hectare de terra é Rosa Maria de Oliveira, mais conhecida na região como Rosa Peba. Mãe de quatro filhos, ela era quebradeira de coco e dependia dessa atividade para sobreviver e sustentar a família.
A criação dos campos agrícolas e o apoio governamental foram fundamentais para melhorar a renda familiar. Atualmente, Rosa cultiva uma grande variedade de produtos, entre eles milho, melancia, feijão, macaxeira e maxixe.
Leia também
Piauí: mulheres são melhores pagadoras que homens no crédito rural do Banco do Nordeste
Banco do Nordeste: Crédito rural cresce 20% no Piauí
Foi graças à produção obtida no campo que, hoje, dois de seus filhos cursam Biologia e Agronomia no Instituto Federal do Piauí (Ifpi). A expectativa é que o conhecimento adquirido no ensino superior contribua para aumentar a produtividade e a renda da propriedade da família.
“Os meus filhos querem continuar no campo, eles não querem desistir. Mas, se a gente não tiver apoio, não tem como continuar. Hoje, os dois fazem cursos voltados para a agricultura para, no futuro, quem sabe, conseguirem me ajudar ainda mais na roça”, relata Rosa Peba.
Da roça à mesa
Mas não é só plantar, é preciso vender. Com os novos recursos, os lavradores começaram a produzir mais e viram a necessidade de comercializar os seus produtos e se unir para buscar novos mercados e oportunidades de venda que valorizassem a produção da comunidade.
Se antes os agricultores dependiam de compradores intermediários, conhecidos na região como atravessadores, para comercializarem os seus produtos, hoje a realidade é outra. Os agricultores explicam que, sem alternativas de comercialização, os produtores acabavam vendendo a produção por valores reduzidos para os atravessadores e obtinham pouco lucro pelo trabalho no campo. O dinheiro mal dava para o sustento das famílias.
Com os recursos do crédito, as famílias contam com o apoio da Associação e do Sindicato na elaboração de projetos e na busca por editais de programas governamentais, como o Programa Nacional de Alimentação Escolar (PNAE), Programa de Aquisição de Alimentos (PAA) e a Produção Agroecológica Integrada e Sustentável (PAIS).
O novo sistema garante mercado, preços justos e dignidade aos agricultores, eliminando a dependência de atravessadores. O alimento produzido é destinado aos programas para ser utilizado na merenda escolar, na formação de estoques por meio da Companhia Nacional de Abastecimento (Conab) ou para ser distribuído para famílias em situação de vulnerabilidade social.
Segundo a presidente do STTR, Maria da Cruz Soares Lira, de 56 anos, mais de 60% da merenda distribuída nas escolas de José de Freitas vem da agricultura familiar do município, substituindo os alimentos que eram industrializados.
“A gente sabe que os nossos filhos estão se alimentando com produtos de qualidade, que vêm da terra, plantados pelos agricultores de José de Freitas. Por isso, vamos continuar lutando por esses espaços e para que esse nosso direito permaneça, porque é isso que nos dá garra para enfrentar a luta do dia a dia, saber que vamos ter para quem vender, sem sermos humilhados, sem sofrer o que a gente sofria”, diz.
Lucro de uma safra dobra de 30% para 60%
O presidente da Associação dos Agricultores Familiares do Assentamento São Francisco, Francisco das Chagas Ribeiro, explica que, se antes os agricultores lucravam 30% com os atravessadores, com uma safra por ano, agora esse lucro gira em torno de 60%, com, em média, três safras. Ou seja, somando o lucro com a quantidade de safra, hoje os produtores lucram seis vezes mais.

Chagas Ribeiro destaca que, com a venda institucional (como o PAA e o PNAE), o agricultor produz com a certeza de um mercado garantido que valoriza o seu produto, o que representa um grande salto na geração de renda para as famílias do campo.
“Agora, o produtor consegue alguma coisa para casa, além da comida. O produtor produz com a certeza de que tem um mercado garantido e que, além de pagar melhor, valoriza o nosso produto”, afirma.
"Eu quero morrer dentro da minha roça”
Apesar da maior parte da vida com uma vida de privações, o agricultor Raimundo Nonato dos Santos Filho, de 78 anos, que também mora na comunidade, afirma que essa é a profissão que mais adora na vida. "Eu quero morrer dentro da minha roça. Esse aqui, para mim, é o melhor trabalho do mundo. Hoje, eu tenho o que comer. Minha vida foi muito sofrida. Porque a gente não tinha terra, não tinha nada. Mas nunca deixei a roça de mão. Estou muito mais satisfeito”, lembra Raimundo Nonato.
Os filhos herdaram do pai a paixão pela roça. Para Raimundo, é motivo de orgulho saber que os quatro têm em seus registros de trabalho a profissão de lavrador. Atualmente, os quatro ajudam o pai na plantação de macaxeira, milho, arroz e feijão.
A família de Raimundo Nonato compartilha a lavoura com outras 49 famílias que também fazem parte do assentamento. Entre elas, a família de Bento da Costa, agricultor desde os 10 anos. Ele conta que, assim como os primeiros assentados, chegou à comunidade em 1997, quando se deu a ocupação da terra. Antes disso, morava como “agregado” em terras de patrões.
“Eu produzia e uma parte eu pagava para o dono da terra, era muito difícil. Depois que cheguei aqui, tenho muito orgulho de dizer que moro no assentamento. A decisão de vir para cá mudou a vida em 100%. Nunca mais quero voltar para aquele lugar. Muita gente não conhece, não sabe a importância que a agricultura familiar tem para nossa sociedade. Eu sei que os desafios são grandes, porque ninguém vive só de vitória. Mas a gente continua na luta”, afirma.
Contratação de crédito para agricultores cresce 30%
O crescimento do crédito acompanha a expansão das operações no estado. Apenas no primeiro trimestre deste ano, o Banco do Nordeste contratou R$ 283,8 milhões para agricultura familiar no Piauí, destinados a 19 mil produtores.
Os aportes, efetivados via Pronaf, com destaque para o Agroamigo, registram altas de 30% e 27% no volume de crédito e quantitativo de contratos, respectivamente, em relação ao mesmo período anterior.

Atualmente, pequenos produtores rurais dispõem de linhas voltadas ainvestimento e custeio com taxas que variam entre 0,5%a.a. e 8% a.a., além de carência de até 4 anos e oportunidades de bônus de adimplência de até 40%, assim como possibilidade de atendimento a todos os membros da unidade familiar (homem, mulher e jovem).
Gerente do Escritório Agroamigo São João do Piauí, Lázaro Lima ressalta o diferencial do microcrédito produtivo e orientado ao trabalhador do campo. “O Agroamigo, com sua metodologia de acompanhamento e orientação, tem como principal desafio, em 2026, ampliar o atendimento por meio de ações que agreguem valor aos empreendimentos rurais, promovendo a modernização com uso de tecnologias e equipamentos que transformem a forma de desenvolver as atividades produtivas”, diz o gestor.
Lima enfatiza que, ao mesmo tempo, o programa busca fortalecer a cultura local e as tradições das comunidades, “demonstrando que, a partir da própria propriedade, é possível viver com dignidade, produzir com qualidade e acessar as políticas públicas disponíveis”.
Ao longo de 2025, investimentos centrados na agricultura familiar do Piauí, por intermédio do Banco do Nordeste, somaram R$ 1,2 bilhão, em 84.884 operações. Os recursos foram 12,9% superiores aos aplicados em 2024.




Comentários (0)
Os comentários são de responsabilidade exclusiva de seus autores e não representam a opinião desta página, se achar algo que viole os termos de uso, denuncie.
Comentar