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Uma startup criada no Piauí quer resolver um dos principais gargalos das cadeias extrativistas no Brasil: a falta de rastreabilidade dos produtos na ponta da produção. Hoje, esse processo costuma começar apenas na indústria, deixando o produtor fora dessa etapa e limitando seu acesso a mercados mais exigentes. O aplicativo Rastro e Voz, ainda em fase de testes, foi pensado para um público com baixa escolaridade e funciona de forma semelhante ao WhatsApp.
A ferramenta trabalha offline e só precisa de conexão quando o usuário retorna para casa, o que amplia o alcance em áreas rurais. O diferencial da solução está justamente na simplicidade, ao adaptar tecnologia a um público que, muitas vezes, não tem acesso a sistemas digitais mais complexos.
Atualmente, cerca de 20 produtores utilizam o sistema de forma ativa, entre extrativistas e artesãos da região de Campo Maior. “O produtor manda um áudio, o aplicativo transforma em texto e registra informações como produção, localização e destino do produto. Depois gera um QR Code que pode ser colocado na mercadoria”, detalha a empreendedora Débora Jaysa, idealizadora do aplicativo.
Ela conta que a ideia nasceu a partir do programa CNA Jovem, uma iniciativa do Sistema CNA/Senar para formação de jovens lideranças no agro. Agora, a ferramenta já começa a ganhar forma como negócio com potencial de impacto econômico. “Tudo começou com a cadeia da carnaúba, que é muito importante para a economia local de Campo Maior. É uma commodity exportada e precisa de rastreio, identificação de origem e conformidade legal para acessar o mercado internacional”, explica a fundadora.
A exigência por rastreabilidade tem crescido em mercados como União Europeia e Ásia, especialmente para produtos ligados à bioeconomia, sustentabilidade e cadeias produtivas mais transparentes. O desafio é comum em várias regiões do país: pequenos produtores até seguem as regras, mas não conseguem comprovar isso, o que limita o acesso a mercados mais exigentes e com melhor remuneração.
“Existem cadeias como pimenta rosa, cacau sombreado e babaçu que enfrentam a mesma dificuldade de registrar a origem e acessar mercados mais justos”, afirma Luciane Ferreira, diretora de marketing da startup. Segundo ela, a ideia é incluir o produtor no processo da rastreabilidade. “Muitas vezes ele faz tudo certo, mas não consegue provar. E isso impede que ele venda por um preço melhor.”
Além de atender o agronegócio extrativista, a solução também mira o setor de artesanato, que enfrenta desafios semelhantes. Produtos feitos com palha, fibras e outros materiais naturais muitas vezes chegam ao mercado sem identificação de origem e são vendidos por valores muito abaixo do preço final. “Quando você coloca o QR Code, o consumidor consegue saber quem produziu, como foi feito, e isso cria valor e até uma conexão com o produto”, explica Luciane. A expectativa é que essa transparência aumente a renda dos produtores e fortaleça cadeias produtivas regionais.

A startup já tem CNPJ, participa de programas de aceleração no Piauí e está na fase final de testes do mínimo produto viável (MVP). Também disputa editais de inovação, como o Centelha, para captar recursos e finalizar o desenvolvimento da tecnologia. A expectativa é expandir a solução para outras cadeias da sociodiversidade, como buriti, pequi e babaçu, ampliando o mercado potencial do negócio.
As fundadoras enxergam espaço para crescer em diferentes regiões do país. “A gente começou com a carnaúba, mas isso pode ser aplicado a várias cadeias”, diz Débora. A startup Rasto e Voz tem ainda como sócios Jayne Karla de Medeiros Santos, desenvolvedora web e agroecóloga de Jardim do Seridó (RN), e Marcílio Honnayb, administrado da startup, especialista na área de tecnologia da informação e gestão pública.
A startup também avalia modelos de monetização da plataforma, com foco em cooperativas, associações e empresas que demandam matéria-prima com rastreabilidade e conformidade. Em um cenário em que mercados internacionais exigem cada vez mais transparência, soluções como essa podem se tornar estratégicas para inserir pequenos produtores brasileiros em cadeias globais de valor.




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