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Agro

Água e dignidade

Projeto de energia solar quadruplica produção agrícola em propriedade de José de Freitas

Resultados do projeto Canindé Solar foram apresentados no Seminário Ser Tão Sol

Robert Pedrosa 25/05/2026 às 08h52 (últ. atualiz.: 05/06/2026 às 16h14) 12 min de leitura 1.004 visitas
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Tecnologia também otimizou a gestão do tempo nas propriedades (Foto: Nathalia Amaral)

Tecnologia também otimizou a gestão do tempo nas propriedades (Foto: Nathalia Amaral)

“Mais do que água, dignidade”. Foi assim que o agricultor e técnico agrícola Náelio Sousa, morador da zona rural de José de Freitas, definiu o impacto da chegada da energia fotovoltaica à comunidade onde vive. A família de Naélio é uma das 20 beneficiadas pelo Canindé Solar, projeto de pesquisa e extensão do Departamento de Engenharia Elétrica da Universidade Federal do Piauí (Ufpi), que busca garantir acesso a sistemas de abastecimento de água alimentados por energia solar.

Os resultados do projeto Canindé Solar foram apresentados durante o Seminário Ser Tão Sol, encontro voltado à discussão da energia solar com impacto social no Nordeste. O evento reuniu especialistas, instituições, agricultores, cooperativas e gestores públicos para troca de experiências e debates sobre a ampliação da geração solar descentralizada no semiárido. O seminário ocorreu nos dias 22 e 23 de maio, no Colégio Técnico de Teresina (CTT) da Universidade Federal do Piauí.

Naélio Sousa disse que a energia solar deu dignidade à comunidade (Foto: Nathália Amaral)
Agricultores que participaram do projeto (Foto: Nathália Amaral)

 

Assim como seu Naélio, muitos piauienses, especialmente no semiárido, convivem desde a infância com a escassez de água e as dificuldades no abastecimento. Diante dessa realidade, iniciativas que ampliam o acesso hídrico representam uma mudança concreta na rotina dessas comunidades. No projeto Canindé Solar, a estratégia foi unir duas das principais potencialidades do estado: a disponibilidade de água no lençol freático e a alta incidência de radiação solar, considerada uma das maiores do país.

O funcionamento é simples: placas solares são instaladas nas comunidades para alimentar bombas responsáveis por distribuir a água de poços de até 15 metros de profundidade, que não possuem ligação à rede elétrica, para caixas d’água, permitindo inclusive o uso noturno, já que a água fica armazenada. O recurso é utilizado tanto na produção agrícola quanto no abastecimento das famílias.

A energia é utilizada na produção agrícola e no abastecimento das famílias (Foto: Divulgação)

 

Naélio Sousa ingressou no projeto em 2023 e afirma que, com a tecnologia, conseguiu quadruplicar a produtividade e otimizar a gestão do tempo na propriedade. Com a maior eficiência do sistema, ampliou o cultivo de banana e acerola, além de iniciar uma nova produção de graviola. “Posso realizar outras atividades enquanto o sistema irriga a plantação. Essa otimização do tempo mudou totalmente o ritmo de trabalho e me permitiu investir em outras atividades”, relata.

Como empreendedor social, Naélio já mobilizou e cadastrou mais de 15 famílias interessadas em replicar o modelo em suas propriedades. Para ele, os resultados do projeto reforçam a necessidade de ampliação de investimentos públicos e emendas parlamentares para democratizar a tecnologia no semiárido.

“Isso tem um impacto muito grande na vida das pessoas. Com uma emenda parlamentar de cerca de R$ 400 mil, é possível atender de 40 a 50 famílias com esse sistema. Um projeto com poço perfurado custa, no máximo, R$10 mil. Por isso, fazemos esse apelo para que a iniciativa seja ampliada para outras comunidades que também precisam”, defende.

Projeto uniu a disponibilidade de água no lençol freático e a alta incidência de radiação solar (Foto: Divulgação)

 

Gezi Ferreira, conhecido como “Pechincha”, é morador da zona rural de Oeiras. Ele conta que a substituição de motores a combustão por sistemas fotovoltaicos trouxe autonomia hídrica e reduziu significativamente os custos de produção, permitindo a expansão do cultivo de maracujá, hortaliças e até da piscicultura.

Morador da comunidade Alto do Bonito, Pechincha ingressou no projeto em 2019 e, após os primeiros resultados positivos, decidiu ampliar o próprio sistema. A iniciativa também impulsionou a criação de um novo negócio, com a venda de milho assado, milho cozido, derivados como pamonha e canjica, além de caldo de cana produzido na propriedade.

“Inicialmente, eu utilizava um motor a diesel que quebrava constantemente, o que acabava causando perdas na plantação. Com a instalação da energia fotovoltaica, deixei de ter esses prejuízos. O resultado foi tão positivo que decidi vender um lote da propriedade para comprar um kit com nove placas. Hoje, utilizo irrigação por gotejamento para economizar água e cultivo hortaliças, maracujá, macaxeira, feijão, melancia e milho”, afirma.

 

Energia solar também amplia acesso à comunicação no campo

Além dos benefícios na produção agrícola, o acesso à energia limpa também possibilitou avanços na comunicação em áreas remotas, como no caso de Rodrigo Vieira. Morador da comunidade Ponta da Serra, também na zona Rural de Oeiras, ele relata que antes dependia de motores movidos a diesel e gasolina, considerados caros e poluentes. Com a instalação do sistema solar, passou a utilizar os painéis para carregar baterias e alimentar uma antena de internet via rádio, garantindo conexão para a família.

A substituição de motorres reduziu custos de produção e permitiu ampliar cultivo (Foto: Divulgação)

 

“Na nossa localidade não havia energia elétrica. Moramos cercados por serras e a internet não chegava até lá. Então tive a ideia de instalar uma antena no alto da serra e, com a placa solar e duas baterias, consegui transmitir o sinal”, conta.

Atualmente, o sistema de Rodrigo possui três placas destinadas à produção agrícola e outras duas voltadas à comunicação. Antes da instalação do sistema fotovoltaico, cerca de metade do faturamento obtido com a produção de macaxeira era destinada à compra de gasolina e diesel para abastecer os motores. Hoje, esse custo foi eliminado e o recurso passou a ser reinvestido na alimentação e na qualidade de vida da família.

Segundo o professor Laerte Amorim, responsável pelo monitoramento técnico dos produtores na região de Oeiras, o sistema fotovoltaico é adaptável às necessidades de cada comunidade, podendo variar de uma única placa com pequena bomba até conjuntos com oito placas solares em áreas de assentamento.

Fontes renováveis são uma solução estratégica para o desenvolvimento regional (Foto: Divulgação)

 

Para o professor, as fontes renováveis, especialmente a energia solar, representam uma solução estratégica para o desenvolvimento regional. Ele destaca que o Piauí possui uma vantagem natural relevante, com quase 12 horas diárias de incidência solar, o que torna a energia fotovoltaica uma alternativa viável para diferentes setores produtivos.

“Mesmo quando não há doação dos equipamentos, como ocorreu no projeto Canindé Solar, ainda compensa para o pequeno agricultor investir em energia fotovoltaica. O custo dos equipamentos caiu consideravelmente nos últimos anos, tornando o investimento acessível inclusive para pequenos produtores por meio de sistemas off-grid. Além disso, existem linhas de financiamento específicas, como as do Banco do Nordeste, com juros baixos e potencial de alta rentabilidade para o produtor a partir dessa transição energética”, explica.

O Seminário Ser Tão Sol foi promovido pelo Grupo Interdisciplinar de Pesquisa em Energia Solar do Piauí (GIPES) e pela Liga Acadêmica de Energia Solar Fotovoltaica (LASOL), com apoio da Fundação Cultural e de Fomento à Pesquisa, Ensino, Extensão e Inovação (FADEX), do Instituto Federal do Piauí (IFPI), do Comitê de Energias Renováveis do Semiárido (CERSA), da Cooperativa de Energia Solar Bem Viver, da Frente por uma Nova Política Energética para o Brasil, do Fórum Mudanças Climáticas e Justiça Social e do Grupo Interdisciplinar de Pesquisa em Energias Renováveis e Sustentabilidade Ambiental (GIPERSA).

 

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