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Startups

Entrevista

Empresa busca parceiros para implantar centro de computação quântica no Piauí

Diretor da Dobslit detalha, em entrevista ao Piauí Negócios, o projeto para o estado

Dulce Luz 16/07/2026 às 16h42 (últ. atualiz.: 20/07/2026 às 18h17) 11 min de leitura 409 visitas
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Rogério Ruivo, diretor de Tecnologias da Dobslit (Foto: Arquivo pessoal)

Rogério Ruivo, diretor de Tecnologias da Dobslit (Foto: Arquivo pessoal)

O Piauí entrou no radar de uma das tecnologias mais disputadas da nova economia. A empresa brasileira Dobslit, especializada em computação quântica, manifestou interesse na instalação de um centro de computação quântica, tecnologia que busca resolver problemas muito complexos de forma diferente dos computadores que usamos hoje.

Apresentada no começo de 2024 ao Governo do Estado, empresas, universidades e instituições ligadas ao ecossistema de inovação, a proposta busca reunir parceiros para definir um modelo de financiamento e participação capaz de viabilizar a implantação da estrutura.

A iniciativa prevê a criação de um laboratório educacional voltado à formação de profissionais, à pesquisa aplicada e ao desenvolvimento de projetos em setores estratégicos da economia piauiense, como energias renováveis, agronegócio, logística, indústria e inteligência artificial. 

O Piauí Negócios entrevistou o diretor de Tecnologias da Dobslit, Rogério Ruivo, que atua há mais de 25 anos no setor de tecnologia da informação e liderou a implementação do primeiro computador quântico educacional instalado pela empresa no Senai São Paulo, iniciativa acompanhada por um programa de formação profissional na área.

Ruivo também participou de projetos de aplicação da computação quântica desenvolvidos com empresas como Embraer e EBSE. 

Na conversa a seguir, ele explica como funcionaria o centro piauiense, o modelo de parcerias em discussão e o que a tecnologia pode representar para a economia do estado.

 

PN - Por que o Piauí foi escolhido para receber esse centro? O que o estado tem de diferente em relação a outros do Nordeste?

RR - O Piauí reúne uma combinação muito interessante de fatores. O estado vive um momento de expansão econômica, especialmente nas áreas de energias renováveis, e possui uma visão de longo prazo para inovação. Nossa proposta não é apenas instalar computadores quânticos, mas criar um polo de formação de profissionais altamente qualificados. A experiência internacional mostra que quem forma pessoas primeiro atrai empresas depois. O objetivo é preparar estudantes, pesquisadores e profissionais piauienses para um mercado que deve crescer significativamente na próxima década. Além disso, acreditamos que o Nordeste pode assumir protagonismo nacional em tecnologias estratégicas, e o Piauí tem condições de liderar esse movimento.

Computação quântica ainda está em fase inicial no mercado (Imagem gerada por IA)

 

PN - A proposta foi apresentada ao governo do estado ou a alguma instituição pública piauiense? Já houve alguma resposta ou sinalização de interesse?

RR - Estamos em diálogo com atores do ecossistema de inovação e apresentando a proposta para instituições do estado. O projeto tem sido recebido com interesse, principalmente por seu potencial de formação de recursos humanos e desenvolvimento tecnológico. Nossa intenção é construir uma iniciativa colaborativa entre governo, universidades, setor produtivo e instituições de ensino.

PN - O projeto depende integralmente de recursos públicos para se viabilizar?

RR - Não necessariamente. O modelo pode combinar investimentos públicos, universidades, empresas e agências de fomento. Esse formato compartilhado reduz custos e amplia o impacto do projeto. Inclusive, um dos objetivos é que empresas instaladas no estado utilizem a infraestrutura para capacitação de equipes e desenvolvimento de projetos de inovação.

Computação quântica ajuda a encontrar soluções mais rapidamente (Foto: ThisisEngineering)

 

PN -. Existe prazo de interesse da Dobslit para uma resposta do Piauí? Outros estados estão sendo considerados para receber o mesmo projeto?

RR - Estamos conversando com diferentes instituições brasileiras, pois existe um movimento nacional de fortalecimento das tecnologias quânticas. Naturalmente, gostaríamos que o Piauí estivesse entre os pioneiros. Quem inicia esse processo antes tende a colher benefícios primeiro, principalmente na formação de profissionais especializados e na atração de novos investimentos.

PN -  Quantos centros ou estruturas de computação quântica existem hoje no Brasil? Quais são os mais relevantes e o que eles já produziram de concreto para a economia ou para a ciência?

RR - O Brasil possui poucos centros dedicados especificamente à computação quântica.Existem grupos importantes em universidades como USP, UFSCar, UFMG, UFPE, Unicamp e centros como o SENAI CIMATEC, além de iniciativas industriais em crescimento. No campo educacional, a Dobslit foi responsável por trazer ao Brasil o primeiro computador quântico educacional real, instalado no SENAI São Paulo. Esse investimento permitiu que a instituição criasse posteriormente sua pós-graduação em Computação Quântica, formando profissionais que hoje começam a atuar em empresas e projetos nacionais. Esse é um excelente exemplo de como um laboratório educacional gera retorno permanente para uma instituição e para a economia.  

PN -  A computação quântica já saiu do laboratório no Brasil, ou ainda está numa fase essencialmente experimental e de formação de pessoas?

RR - Hoje vivemos as duas fases simultaneamente. Já existem aplicações industriais concretas, como os projetos desenvolvidos pela Dobslit em parceria com a Embraer e com a EBSE, mostrando que a computação quântica começa a gerar valor econômico real. Ao mesmo tempo, ainda existe uma enorme demanda por formação de profissionais. Esse talvez seja o maior gargalo do setor atualmente. É justamente por isso que acreditamos tanto na instalação de laboratórios educacionais.

PN - Além do financiamento, o Piauí tem a infraestrutura física, o capital humano e o ambiente institucional necessários para abrigar e operar um centro desse tipo?

RR - Sim. Ao contrário do que muitos imaginam, um laboratório educacional de computação quântica não exige uma infraestrutura extremamente complexa. Os computadores quânticos educacionais foram justamente desenvolvidos para operar em universidades e centros tecnológicos. O principal investimento é em pessoas. A infraestrutura física pode ser construída gradualmente, enquanto a formação dos profissionais gera benefícios permanentes para o estado.

Computadores quânticos exploram várias possibilidades ao mesmo tempo (Imagem gerada por IA)

 

PN - Existem professores, pesquisadores ou técnicos no estado com formação em computação quântica? O projeto prevê trazer especialistas de fora ou formar os piauienses?

RR - Existem pesquisadores atuando em áreas relacionadas à física e à computação, mas como ocorre em praticamente todo o Brasil, ainda há escassez de especialistas em computação quântica. Nosso objetivo não é depender permanentemente de especialistas externos. O projeto prevê justamente formar professores, pesquisadores e estudantes piauienses para que, em poucos anos, o conhecimento esteja internalizado no próprio estado. Esse é o modelo que gera desenvolvimento sustentável.

PN - O projeto menciona simulações de hidrogênio verde como aplicação prioritária. Isso significa que o centro poderia ajudar o Piauí a avançar tecnologicamente na produção de H? verde, onde o estado já é líder nacional em potencial eólico e solar?

RR - Sem dúvida. A simulação de moléculas e materiais é considerada uma das aplicações mais promissoras da computação quântica. Embora ainda estejamos nos primeiros anos dessa tecnologia, um centro instalado hoje prepara pesquisadores e empresas para explorar novas rotas de produção, novos catalisadores e materiais mais eficientes para o hidrogênio verde à medida que os computadores quânticos evoluírem. O Piauí pode se posicionar desde já para participar dessa transformação tecnológica.

PN - Além do hidrogênio, quais outros setores da economia piauiense poderiam se beneficiar concretamente de um centro de computação quântica nos próximos cinco anos?

RR - Diversos setores, entre eles, energias renováveis, logística e transporte, agronegócio, distribuição de energia, inteligência artificial, otimização industrial, cibersegurança e  setor financeiro. Mesmo quando as aplicações industriais ainda estiverem em desenvolvimento, a formação de profissionais especializados já gera impacto imediato para universidades, empresas e startups.

PN -  A parceria com a Embraer e os projetos com energia eólica mostram aplicações industriais reais. Existe alguma empresa ou setor do Piauí que poderia já usar a tecnologia desde o início das operações do centro?

RR - Sim. Empresas ligadas ao setor de energia renovável, logística, agronegócio e indústria podem começar imediatamente utilizando algoritmos de otimização, inteligência artificial e computação quântica em nuvem. Mas, na nossa visão, o maior retorno inicial vem da educação. O melhor exemplo é o SENAI São Paulo. Após adquirir o primeiro computador quântico educacional do Brasil junto à Dobslit, a instituição estruturou uma pós-graduação em Computação Quântica e passou a formar profissionais para um mercado altamente especializado. Esse investimento não ficou restrito ao laboratório: fortaleceu a instituição, atraiu alunos, abriu novas oportunidades de pesquisa e aproximou empresas interessadas em inovação. É exatamente esse efeito multiplicador que buscamos para o Piauí, criando uma base de talentos capaz de impulsionar o desenvolvimento tecnológico e atrair investimentos de alto valor agregado para o estado.

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