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Opala do Piauí mira “impressão digital” para agregar valor e conquistar mercado internacional

Pesquisa identifica características únicas da gema de Pedro II, enquanto projeto fortalece a produção de joias

Dulce Luz 22/07/2026 às 16h04 (últ. atualiz.: 24/07/2026 às 12h20) 13 min de leitura 125 visitas
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Estudo quer distinguir a origem da opala piauiense, inclusive entre áreas de Pedro II (Foto Sebrae)

Estudo quer distinguir a origem da opala piauiense, inclusive entre áreas de Pedro II (Foto Sebrae)

Uma pesquisa em andamento tenta identificar uma espécie de “impressão digital” da opala encontrada em Pedro II, no Norte do Piauí. Por meio de análises químicas, mineralógicas e geológicas, pesquisadores buscam descobrir características capazes de comprovar cientificamente a procedência da gema e diferenciá-la das opalas encontradas em outras partes do mundo.

Em 2025, pesquisadores do Gemological Institute of America (GIA), uma das principais instituições internacionais de pesquisa e educação em gemologia, estiveram em Pedro II para coletar amostras. As pedras passam por análises laboratoriais que investigam aspectos como composição, elementos-traço, inclusões e características relacionadas ao jogo de cores.

Pesquisadores do Gemological Institute of America (GIA) coletaram amostras de opala em Pedro II (Fotos: APL da Opala)

 

A expectativa é que o estudo avance a ponto de permitir não apenas distinguir a opala piauiense das gemas encontradas em outros países, mas também identificar diferenças entre pedras provenientes de distintas áreas produtoras de Pedro II.

“Na medida em que tivermos essa identidade, conseguimos separar a opala de Pedro II, do Piauí, de qualquer outra opala do mundo. Isso vai agregar valor e divulgar o Piauí no mercado mundial”, afirma o geólogo e professor do Instituto Federal do Piauí (Ifpi) Érico Gomes, coordenador adjunto do Arranjo Produtivo Local (APL) da Opala. Segundo ele, toda a pesquisa é com recursos financeiro da (Fundação de Amparo à Pesquisa do Piauí (Fapepi) e do Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq).

Érico Gomes, coordenador adjunto do Arranjo Produtivo Local (APL) da Opala

 

O geólogo estuda as opalas piauienses desde 1988 e atualmente integra uma equipe internacional responsável pela elaboração do Guia Internacional da Opala, organizado pela Confederação Mundial de Joalheria (CIBJO). O estudo desenvolvido com participação do GIA tem previsão de conclusão ainda em 2026, e os resultados deverão ser publicados na Gems & Gemology, renomada revista científica especializada em gemologia. A pesquisa pode ampliar o conhecimento sobre a origem da gema piauiense, fortalecer sua rastreabilidade e contribuir para seu posicionamento em mercados de maior valor agregado.

 

Iniciativa quer concentrar em Pedro II toda a cadeia produtiva da opala

Mas a busca por uma identidade científica para a opala é apenas uma das frentes de uma estratégia mais ampla em andamento em Pedro II. Depois de décadas deixando o município principalmente como pedra bruta, a gema começa a ser tratada como parte de uma cadeia produtiva capaz de gerar mais empregos, empresas e renda dentro do próprio Piauí.

Esse movimento é conduzido pelo Arranjo Produtivo Local (APL) da Opala, iniciativa que reúne instituições de pesquisa, órgãos públicos, mineradores, artesãos, joalheiros e empreendedores. A estratégia passa por capacitar profissionais, incorporar tecnologia à produção de joias, melhorar as condições da mineração, ampliar a sustentabilidade da atividade e agregar valor à gema antes que ela deixe o estado.

 

 

A estratégia econômica parte de um problema histórico. Segundo Érico Gomes, mais de 90% da opala extraída no Piauí ao longo de aproximadamente oito décadas deixou o estado na forma bruta. A venda da pedra gera receita, mas limita a capacidade de o Piauí capturar o valor criado nas etapas seguintes da cadeia. Lapidação, design, fabricação de joias e comercialização do produto acabado podem multiplicar as atividades econômicas ligadas à gema e manter uma parcela maior da riqueza no território onde ela é extraída.

“Queremos internalizar essa opala em Pedro II. Gerar emprego na lapidação, na fabricação de joias, aumentar a renda dos garimpeiros, recuperar áreas degradadas e transformar resíduos da mineração em produtos, tecnologia, inovação e pesquisa”, afirma Gomes.

Mineradores, artesãos, joalheiros e empreendedores participam das ações do APL da Opala

 

Etapa de lavagem do material integra o processo de extração da opala em Pedro II

 

Na avaliação do pesquisador, a combinação atual de investimentos públicos, pesquisa científica, qualificação profissional e articulação com o mercado representa “a maior oportunidade em 80 anos” para mudar o perfil econômico da exploração da gema no Piauí.

A expectativa é que o avanço tecnológico produza efeitos tanto na quantidade quanto no valor do que é produzido. Segundo Gomes, a incorporação de novas tecnologias pode melhorar a qualidade das joias fabricadas no estado e, consequentemente, aumentar o valor dos produtos. O pesquisador também prevê crescimento da produção de opalas e da fabricação de joias à medida que a cadeia se torne mais estruturada.

Cada fragmento de opala passa por seleção antes de ser destinado ao beneficiamento

 

Empregos e renda ficam no território

A principal mudança pretendida pelo APL é ampliar o número de etapas da cadeia produtiva realizadas dentro do estado. Hoje, o setor envolve mineração, lapidação, ourivesaria, design, fabricação e comercialização de joias, além de serviços relacionados. Predominam micro e pequenas empresas familiares, e toda a mão de obra diretamente empregada pelas empresas acompanhadas pelo projeto é local.

Um levantamento realizado em Pedro II ajuda a dimensionar o impacto econômico da atividade. De acordo com dados apresentados pela coordenadora do APL da Opala, Lilane Brandão, 30 lojas cadastradas geravam, no período pesquisado, 81 empregos diretos e 213 indiretos. 

A opala de Pedro II movimenta os setores de joalheria e artesanato

 

A estimativa é que o universo de empreendimentos seja hoje maior e possa chegar a cerca de 50 lojistas quando considerados Pedro II, Piripiri e municípios vizinhos. Em média, segundo o levantamento, cada empresa ou vendedor pesquisado estava associado à geração de aproximadamente três empregos diretos e sete indiretos.

Centro de Tecnologia atrai alunos de outros estados e do exterior

Para aumentar a capacidade de produção e a competitividade dos negócios, o Centro de Tecnologia e Artefatos Minerais (Cetam), em Pedro II, passou a oferecer cursos em áreas como ourivesaria, lapidação, design, marketing e empreendedorismo. A estrutura foi reaberta e modernizada depois de quase duas décadas e incorporou novas tecnologias de produção, incluindo equipamentos para fabricação de joias, impressão 3D e softwares de modelagem.

 

A formação profissional já começa a atrair pessoas de outras regiões. Segundo Érico Gomes, os cursos realizados em Pedro II receberam participantes do Peru e da Holanda, além de alunos de estados como São Paulo, Santa Catarina, Ceará, Maranhão e Bahia. “Pedro II se tornou um polo de atração de pessoas que querem aprender e estudar nesse segmento da ourivesaria e da joalheria. Isso gera emprego, divulga Pedro II e divulga o Piauí”, afirma.

A formação profissional já começa a atrair pessoas de outras cidades e países

 

Volume de opala que chega ao exterior é tímido e sem controle

Apesar da projeção internacional da opala de Pedro II, a maior parte da comercialização identificada pela pesquisa ainda está concentrada no mercado interno, especialmente no próprio município e no Piauí. Uma parcela menor dos lojistas, no entanto, já comercializa seus produtos para outras regiões brasileiras e para o exterior.

Segundo o levantamento apresentado por Lilane de Araújo Mendes Brandão, a opala piauiense já alcança mercados como França, Polônia, Espanha, México, Indonésia, Inglaterra, Portugal e Estados Unidos. A comercialização ocorre por diferentes canais, incluindo lojas físicas, catálogos digitais e participação em feiras e eventos.

Lilane de Araújo Mendes, coordenadora do Arranjo Produtivo Local (APL) da Opala

 

O estudo não apresenta dados consolidados sobre o faturamento ou o volume total comercializado, o que evidencia outro desafio para a cadeia. Parte dos empreendimentos ainda não mantém controle sistemático da produção anual. Para os pesquisadores, avançar na formalização e na organização desses dados será importante para profissionalizar o setor, melhorar a rastreabilidade e facilitar negociações com compradores de maior porte.

Outro gargalo é a certificação. A pesquisa aponta que a maioria das gemas adquiridas pelos empreendimentos analisados não possui certificação de origem. Nesse cenário, a caracterização científica da opala piauiense pode fornecer conhecimento importante para ampliar a identificação e a rastreabilidade da gema, enquanto o desenvolvimento de mecanismos de certificação é visto como estratégico para aumentar a confiança dos compradores e facilitar a entrada em mercados mais exigentes. Empresas começam a apostar em identidade própria para diferenciar seus produtos.
 


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Sustentabilidade passa a ser medida pelas empresas

A pesquisa do Arranjo Produtivo Local também identificou um movimento das empresas em direção à construção de uma identidade própria para os produtos fabricados em Pedro II. De acordo com dados apresentados pela coordenadora, 17 empresas buscam desenvolver identidade visual própria e 20 afirmam incorporar elementos da cultura local aos seus produtos.

A estratégia procura diferenciar a cadeia produtiva de uma atividade baseada apenas na extração mineral. Para Gomes, a sustentabilidade precisa alcançar todas as etapas, do garimpo à comercialização da joia. “O consumidor vai saber que aquela joia tem uma origem identificada e foi produzida com princípios de sustentabilidade, respeito ao meio ambiente e responsabilidade social. Isso é um diferencial de mercado”, afirma.

Outra frente do projeto é a criação de um índice de sustentabilidade específico para os negócios que integram a cadeia produtiva da opala. O instrumento avalia aspectos econômicos, sociais e ambientais e pretende transformar conceitos amplos de sustentabilidade em indicadores que possam ser acompanhados pelas empresas e utilizados na formulação de políticas públicas.

A lavagem do cascalho é uma das etapas que antecedem a identificação da opala 

 

Segundo Lilane, o levantamento identificou experiências positivas, como práticas de economia circular e reaproveitamento de resíduos, mas também problemas que ainda limitam a competitividade da cadeia, entre eles a baixa adoção de tecnologias e a ausência de certificação de origem. O APL também desenvolve estudos sobre recuperação de áreas degradadas, diagnóstico ambiental das minas e aproveitamento dos resíduos gerados pela atividade mineral.

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