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Coluna Elas Investem

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Como Lúcia Galeb criou marca de laticínios artesanais no Piauí a partir de rancho em Curralinhos

Produção abastece escolas públicas, aposta em produtos de maior valor agregado e entra em nova fase de expansão

Coluna Elas Investem 14/05/2026 às 11h28 (últ. atualiz.: 15/05/2026 às 11h05) 7 min de leitura 683 visitas
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Em um município de pouco mais de 4 mil habitantes no interior do Piauí, um pequeno laticínio artesanal começou a ocupar espaço em um mercado normalmente dominado por grandes marcas. Em Curralinhos, a empresária Lúcia Galeb transformou uma produção inicialmente voltada ao consumo próprio em um negócio que hoje abastece escolas públicas, atende clientes no mercado regional e aposta em produtos de maior valor agregado, como iogurtes artesanais e um queijo autoral inspirado no tradicional canastra mineiro.

Atualmente, o Rancho Galeb produz cerca de 180 litros de leite por dia, mantém 13 vacas em lactação e outras sete com partos previstos para o próximo mês. A operação ainda funciona em escala enxuta, mas já entrou em uma fase de expansão impulsionada pelo crescimento da demanda e pela valorização de alimentos artesanais e de origem controlada.

O rancho produz diferentes linhas de iogurte artesanal (Foto: Divulvação)

 

Além do queijo coalho, queijo minas padrão, queijo recheado com goiabada e diferentes linhas de iogurte artesanal, o rancho também produz um queijo autoral desenvolvido a partir de técnicas aprendidas por Lúcia em cursos e grupos especializados em produção artesanal. 

Lúcia aposta na valorização de alimentos artesanais (Foto: Divulgação)

 

A demanda pelos produtos já supera a capacidade atual de produção. “Praticamente todo o leite está virando iogurte. Muitas vezes não sobra para fazer queijo”, afirma Lúcia. Segundo ela, o crescimento ocorreu principalmente por meio da propaganda boca a boca e das redes sociais, onde compartilha a rotina da fazenda, os cuidados com os animais e o processo de produção.

O queijo autoral é um dos produtos mais vendidos (Foto:Reprodução)

 

O negócio encontrou um mercado importante também na alimentação escolar. O laticínio já fornece para municípios piauienses e passou a atender escolas da rede estadual em regionais de ensino do estado. Para Lúcia, além do impacto econômico, existe um significado social nesse processo. “Os alunos da rede pública estão consumindo iogurte de verdade. Antes era fornecida bebida láctea, que tem muito menos leite na composição”, compara.

Apesar do crescimento, o negócio ainda opera em escala restrita. Atualmente, o laticínio possui apenas uma colaboradora direta, enquanto o rancho mantém três funcionários na operação rural. A própria Lúcia participa ativamente de praticamente todas as etapas da empresa. “Eu acompanho a produção, resolvo questões administrativas, organizo demandas e muitas vezes faço a produção inteira”, conta, ressaltando que a falta de mão de obra qualificada é um dos principais desafios do interior.

 

Vocação inesperada

O caminho da empresária nunca havia passado perto do agronegócio tradicional. Ainda jovem, saiu do Piauí para morar em Brasília, onde se formou em administração de empresas e ocupou cargos comissionados no setor público. Depois do casamento com o empresário paranaense Michel Galeb, mudou-se para Curitiba. Decidiu voltar ao estado durante a pandemia porque o marido integra grupo de risco por problemas respiratórios. A ideia inicial era passar poucos meses no interior. Mas não foi o que aconteceu.

Lúcia participa ativamente de praticamente todas as etapas da empresa (Foto: Divulgação)

 

O casal já possuía um terreno em Curralinhos, onde começou a construir uma casa que serviria apenas para férias. No meio das obras e do isolamento, surgiu a possibilidade de empreender. Primeiro veio a ideia de criar algumas vacas para consumo próprio. Depois, os testes com queijo e iogurte começaram a chamar atenção de vizinhos e conhecidos.

“Eu sempre pensava que o leite precisava virar um produto com valor agregado”, diz. A lógica era simples: com produção pequena, seria necessário vender algo de maior valor para tornar o negócio sustentável. A partir daí, Lúcia começou a estudar o funcionamento de um laticínio, buscar regularização e entender como poderia transformar uma produção artesanal em empresa formal.

 

Regularização e aprendizado

O caminho passou pelo Serviço Brasileiro de Apoio às Micro e Pequenas Empresas (Sebrae) e pela Agência de Defesa Agropecuária do Piauí (Adapi), responsável pela orientação técnica e emissão do selo de inspeção estadual. Em menos de um ano, o laticínio já estava autorizado a comercializar seus produtos.

A demanda pelos produtos já supera a capacidade atual de produção (Foto: Divulgação)

 

Lúcia conta que o aprendizado sobre laticínios veio muito mais da prática do que da formação técnica. Mas quando decidiu empreender, passou a participar de grupos de produtores de queijo no Brasil e no exterior, realizou cursos de especialização e, recentemente, concluiu formação como mestre queijeira.

 

Mulheres no campo ainda enfrentam preconceito

Outro desafio veio do próprio ambiente rural. “O Nordeste ainda é muito preconceituoso com mulheres no campo. Já passei por situações em que precisei provar meu conhecimento na prática para conquistar respeito”, afirma. Segundo ela, a experiência trouxe mais segurança e fortaleceu sua posição dentro do negócio. “Acredito que estamos ocupando cada vez mais espaço e mostrando que competência não tem gênero.”

Michel Galeb (à esqueda), marido de Lúcia, e parte da equipe do rancho (Foto: Divulgação)

 

Agora, os próximos passos envolvem expansão. Com recursos próprios, o casal planeja dobrar a produção do laticínio, ampliar o número de animais, investir em pastagens irrigadas e instalar um sistema de bombeamento movido a energia solar para reduzir custos operacionais. Em uma região marcada pela seca e pelo calor intenso, água e energia se tornaram pontos estratégicos para o crescimento da empresa.

No meio da rotina entre produção, gestão e novos projetos, Lúcia resume a relação construída com o negócio que nasceu quase por acaso no interior do Piauí. “O rancho é minha casa e um dos lugares que mais amo no mundo.”

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